REVISTA QUADRIMESTRAL - ANO 21
N° 47 - 2006 - R$ 15,00

SUMÁRIO

Sobre a revista Edifício
Fábio Lucas

Dinheiro, fetichismo e política: l´homme e
le citoyen
: o debate nos Anais Franco-Alemães

Edmundo Fernandes Dias

Breve nota sobre a teoria do imperialismo (1902-1916)
Marcos Del Roio

O conceito de ideologia no último Lukács
Ranieri Carli

Marx e Engels: democracia e economia
Muniz G. Ferreira

O capítulo não-escrito de O capital de Marx: reflexões sobre a Nova Política Econômica (NEP) na Rússia (1921-1929)
Julio Godio

Encarte
O socialismo e os intelectuais (segunda parte)

 

 

Apresentação

 

Uma das características maçantes do nosso tempo é precisamente o descolamento entre os interesses e a luta social das instituições políticas e do estatuto legal predominante. Em outras palavras, pode enunciar que a chamada democracia liberal burguesa, ao contrário de se generalizar como modus operandi do imperio mundi , como pretendem muitos autores e analistas, está sim perdendo a sua legitimidade diante das classes subalternas e encontrando dificuldades para garantir a unificação dos grupos e das classes dirigentes. Esse cenário se expressa com clareza maior ao se observar o enfraquecimento dos sindicatos e dos partidos políticos originados ou vinculados às camadas subalternas da vida social.

É notável a fraqueza dessas instituições quando se deparam com a exigência de renovar a sua legitimidade de representação social e política, particularmente em processos eleitorais. Isso ocorre, em razoável medida, porque tanto sindicatos como partidos, até para sobreviverem, passaram a ser muito mais instituições estatais, instituições do regime, do que instituições sociais que expressem em gérmen uma nova ordem social, uma democracia centrada no trabalho e no espaço público.

Enquanto isso os movimentos e a luta social se expressam de forma muita criativa, mas que se poderia identificar como uma fase meramente espontânea. Certo de que essa luta social espontânea é mais portadora de futuro do que uma série de outras lutas que trazem um caráter meramente corporativo defensivo. À primeira falta ainda uma direção consciente, uma nova cultura e a construção de instituições que se antagonizem com o poder do capital, mas à segunda só resta contemplar o esvaziamento de seus suportes sociais e o seu apodrecimento, a menos que consigam a proeza de se desvincular da ordem estatal burguesa. De fato, repetindo Gramsci, o velho morre e o novo não pode nascer.

Numa situação como essa prevalece a dispersão dos grupos sociais subalternos, debilitados diante da ação desagregadora do capital em crise, utilizando-se da criatividade e da ação espontânea, quando não meramente corporativa, para se expressar, sem considerar a imensa dificuldade em gerar intelectuais próprios. O outro lado da equação é a disponibilidade dos intelectuais existentes em se deixar atrair pela ação do capital e mesmo de passar a ser elaboradores do discurso que tem pretensão hegemônica.

O momento é então de reconhecer que a crise do capital e a sua ofensiva não têm condições mais de gerar nem mesmo uma revolução passiva, que a sua capacidade civilizatória se esgota numa latente catástrofe ambiental. Reinventar a práxis socialista é urgente, mas no momento a dimensão prática da teoria e da crítica histórica são de importância decisiva.

Conhecer a obra de Marx, com todo o seu potencial crítico revolucionário, despido de mitos ou de vulgarizações, é um desafio coletivo importante. O mesmo vale para alguns de seus seguidores mais críticos e criativos, com Lênin, Rosa, Lukács e Gramsci.  Não é por acaso então que esse número da revista Novos Rumos , que o leitor tem agora em mãos, dedica um espaço amplo a reflexões sobre a obra de Marx e de marxistas de alta estatura intelectual. O tradicional encarte continua oferecendo material de importância significativa para a discussão das relações entre intelectuais e movimento socialista.­

 

Marcos Del Roio
Instituto Astrojildo Pereira
Presidente